Ela sim me entende: está vermelha de revolta. Se pudesse se juntar ao debate,
se juntaria, mas é muito tÃmida. No entanto, não lhe falta ira. Não lhe falta
insatisfação. No fundo, ela é como eu, a diferença é que tem um par de seios e
um volume a menos na pélvis.
Diz: ela disse que você é estúpido. Dá
para acreditar?
- Quem, exatamente?
Ela diz que é a segunda garota do quem é
você para julgar? Estúpido, ok. Eu não crio a verdade, apenas a trago. Eu
sou o Messias dessa sala, amigos, mas vocês são todos hereges. Deviam ir para a
fogueira, todos.
- Estamos entendidos? – a coordenadora diz. Bem, agora vejo: ela estava falando
particularmente com o grupinho do outro lado da sala. O lado soviético da guerra fria.
Penso em Freud. Acho que no fundo aquelas pessoas querem chorar, espernear,
e gritar, e o fariam se não fosse vergonhoso. Imagino que sejam que nem eu, a
diferença é que negam: negam que precisam de um empurrãozinho para estudar.
Negam que algo os impede de serem pessoas melhores. E eu, apesar de não
conseguir, sou um emblema dessa luta para eles. Porque sou diferente deles,
completamente diferente, mas a diferença na verdade é uma só: eu não resolvi
negar meus defeitos.
Sei que sou um completo babaca.
Sei que sou rÃspido.
Sei que sou folgado.
Sei que talvez sempre esqueça a fórmula de Bhaskara.
Mas não atribuo isso aos professores, pois é problema meu. Meu! E eu não nego isso.
Essa é a diferença principal.
- Estamos entendidos?
Sim.
Sim.
Sim.
Sim – todos dizem em unÃssono.
Estamos mais que entendidos.
Então, ela sai, e o silêncio vem rápido num sopro, até que alguém se levanta, e
aponta para mim.
- Quem você pensa que é para falar assim com a gente, filho da puta?
Eu não entendo, eu simplesmente não entendo. O rapaz está gritando.
- Então você quer ser um professor, é? Você acha que vai mudar alguma merda se
for professor e quer descontar sua frustração em nós.
Ele tem cabelo raspado. Um pequeno gramado negro na cabeça, orelhas furadas, e
uma porção de seu lábio inferior é dobrado para frente.
Ele se aproxima. Eu me levanto.
- O que você q – ele me dá um soco no rosto.
Meu ombro colide contra a parede, mas isso me serve como um impulso. Desvio,
sem querer, de outro soco, que acerta na parede. Meu pescoço beija o seu
cotovelo, e eu, sem notar, sorrio. Agarro seu braço e o puxo para o lado, ele
se desequilibra, com o calcanhar roçando na perna de uma cadeira, e cai, me
trazendo para o chão.
Mais um soco: esse acerta meus dentes. Sinto meu aparelho fixo se desprender.
Nunca sorria enquanto briga, penso. É
a voz angelical.
Vamos, mete a porrada nesse infeliz, está
em cima dele. É a voz diabólica.
Vamos, espanca esse bosta até a morte. São
ambas as vozes.
Minha pélvis está esmagando a barriga do delinquente. Talvez eu esteja tendo
uma ereção, mas não consigo ter certeza.
Só tenho certeza que um soco é dado de cada vez. Os intervalos de tempo são
gradativamente maiores, e os socos vão ficando mais desajeitados. O cara parece
ter desistido de lutar, mas ele agarra minhas costelas. Agora ele sabe que é
possÃvel sentir minhas costelas numa boa – sou quase um anoréxico.
Um soco.
Mais um soco.
Outro soco.
Para, cara, ele tá desmaiado já!
Um soco de gorjeta.
Um soco de juros.
Um aumento de salário.
Minha mão está suja de sangue.
Para, cara! Um braço forte me puxa. É
um dos agentes escolares.
Estou sorrindo. Estou rindo e suando.
Dos meus olhos saem lágrimas de alegria.
Eu olho para todos: todos estão assustados. Talvez porque pensavam que eu ia
apanhar. Talvez porque não previam uma briga naquele exato momento.
Talvez porque meus dentes estejam vermelhos.
O agente escolar me puxa pelo braço até a diretoria. Sinto o cheiro de horror
de todas aquelas pessoas.
Eu sussurro, embora ache que queria ter gritado:
- Quem são vocês para julgar?
Olho para trás pela última vez antes de ser arrastado para fora da sala. A
garota está lá, no mesmo lugar. Uma pequena gota de sangue respingou em seu
pescoço pálido.
Ela desvia o olhar quando nota que estou olhando.
Ela queria ter feito isso, penso. Ela queria socar alguém.
Ela me entende muito bem.
A torneira do pátio ainda pinga, junto com o sangue em minha boca.